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11 de fevereiro de 2007

UM CASO MUITO ESTRANHO


Mais uma crônica do cotidiano de Luiz César Saraiva Feijó

Ele já não saía pelas manhãs para o trabalho. Parecia que andava doente. Os filhos também não eram vistos e só se tinha notícia do paradeiro daquela família, quando a empregada deles, diga-se de passagem, muito ignorante, vinha jogar o lixo fora. Aí conversava rapidamente com quem estivesse por lá. Ela que não caísse na besteira de dar com a língua nos dentes, dizendo que o casal brigava a toda hora, um batendo no outro...e tome tapa!. Um dia chegaram até a se comportar como cães no cio. Era dentada pra todo o lado... Um berreiro infernal! Se a infeliz da criada falasse alguma coisa para alguém do Condomínio, estaria na rua no mesmo instante. Como as coisas andam pretas e ninguém consegue emprego mesmo, ela não falava nada do que acontecia, lá em cima, no alto do edifício, onde o bancário morava com a mulher e seus três filhos. Ele trabalhava numa agência longe do centro da cidade, quase em outro município. Dizem que foi parar lá por castigo, pois isso é o que acontece com os funcionários públicos chatos e sempre da oposição... Ele era um porre! No condomínio não se dava com ninguém. Até aí, tudo bem, porque cada um constrói a sua história de vida e imprime a ela o seu modo de viver. Por outro lado, cumpria rasoavelmente o regulamento do prédio e não cometia nenhuma falta grave, só umas muito leves, como dizia a oposição. Mas ele escondia muita coisa, sim, senhor! Sua história era muito esquisita e não agradava a ninguém. Era muito antipático. Tinha um discurso gongórico e sua fala oblíqua, dissimulada, muito estranha mesmo, irritava os seus interlocutores. Mesmo com todos esses predicados às avessas, chegou a síndico do Residencial Palmeiras Verdejantes, onde comprara seu apartamento, num dos últimos andares da Torre Sul.
Vocês sabem como é a vida num condomínio. Todos querem mandar e ninguém quer respeitar nada. Mas ser síndico ninguém quer... Aí o cara foi eleito, creio que só para todos falarem mal dele, com toda a razão, porque, besteira é o que ele sempre soube fazer. Depois de eleito, foi uma tristeza. Não houve mais paz por aquelas bandas. O cara não resolvia nada. Não decidia coisa alguma. Não pagava os fornecedores em dia, mesmo com a caixa cheia de dinheiro, pois a receita do condomínio era muito boa. Não fazia isso por mal. Era indeciso, titubeante, desconfiado, pegajoso, um nojo. E, com esse peculiar modo de ser, o pobre coitado ia levando sua vidinha. Economizava umas ninharias, pois estava isento de pagar a cota condominial, além de receber meio salário mínimo, pleiteado para ajudar seus deslocamentos de ônibus até ao centro da cidade, e ficava, a cada dia que se passava, mais zura ainda. Sua mulher sofria muito com a avareza do pobre diabo. Queria um carro mais novo e nada. Queria umas roupas mais modernas, e nada. Desejava passar os feriadões nas belas estâncias da serra, e nada. Assim era aquela triste figura, porque seus atos sempre materializavam um comportamento estranho e diferente, nas mínimas coisas que fazia. Sabemos, por outro lado, é verdade, que ninguém tem o poder de ver o íntimo de seu próximo com os olhos da pureza, privilégio dos santos. Portanto, se algum condômino daqueles tempos distantes, idos e vividos, estiver me lendo, poupe-me de suas críticas.
O coitado deixava, com suas atitudes, sua família muito desesperada. Os filhos não podiam fazer nada que não estivesse dentro de um código de regras de comportamento, que nem os tempos medievais registraram. As duas meninas eram as que mais sofriam. Até as roupas que usavam eram submetidas a uma aprovação prévia. Tudo o que não estivesse compatível com a sua moral, como calças apertadas, blusinhas que não cobrissem a barriguinha, shortes curtinhos e apertadinhos e muito mais, jamais poderia ser usado pela dupla. Conclusão. As gurias saiam de casa com uma roupa e trocavam logo, logo, dois andares abaixo, deixando tudo dentro de uma caixa de incêndio abandonada, um tipo de alçapão falso que um dia elas viram o pai, no início da função síndico, tentando estudar um meio de fechar aquilo tudo, mas nunca conseguiu escolher um entre os quase oitenta e quatro projetos que mandou preparar por firmas especializadas, inclusive uma que tinha sede no estrangeiro. Pois bem, as meninas trocavam de roupas naquela cafua e caíam na farra com os amiguinhos da escola, que moravam no mesmo do bairro. Parece que sua mãe tinha conhecimento de tudo e dava o maior apoio a elas, pois era também uma sofredora e passara maus momentos na companhia daquele traste, figura estranhíssima em todos os sentidos, diga-se mais uma vez, a bem da verdade. A mulher nunca aprovou o relacionamento do marido com as filhas. Digo isso movido por sintomas, pois, como gosto de sublinhar, ninguém pode ver o mal que se esconde nos corações humanos. Creio que nem o Sombra, personagem do antigo programa da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, dirigido por Álvaro Aguiar e que Hollywood transfigurou num filme de suspense, dirigido por Russel Mulcahy. Pois bem, a infeliz patroa – era esse o título que ele dava à esposa - já não agüentava mais a vida sofrida que levava e tudo piorava nas crises terríveis de avareza, deixando a coitadinha sem um vintém no bolso para pegar uma condução sequer, além de ser proibida de falar com qualquer homem do prédio. Uma loucura. O cara era também muito ciumento. Mas como não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe, a primeira dama do Residencial Palmeiras Verdejantes deu seu grito de independência. Aí é que a vaca foi mesmo pro brejo. O homenzinho pirou de vez. Ela passou a sair de casa pela manhã e só voltava altas horas da noite, sempre saindo de dentro de um carrão preto. Que luxo!
Então, o silêncio da noite passou a ser quebrado, lá nos últimos andares e a discussão passou a comer solta. A vida do síndico era, a cada dia que passava, uma agonia sem fim. Seu humor, cada vez mais em frangalhos, deixava-o abatido e agressivo com todos. Mas a mulher não se intimidava. Escancarou e mandou ver!
Um dia, depois de quase uma semana à espera da mulher, que disse ter ido à casa de uns amigos para descansar, financiada pelas economias da filha mais velha que sempre ganhava uns cobres dos avós, o cara desceu lá do alto de seu apartamento, abriu a porta principal do saguão de acesso ao Residencial, sentou-se num pedestal inacabado, que desde a sua posse como síndico estava destinado a receber uma caixa de correios, e iniciou uma greve de fome. Ficou lá durante alguns dias à espera da mulher e, por incrível que pareça, passou a ser muito bem tratado por todos, que compreenderam perfeitamente a sua aflição, o seu desespero, a sua agonia, o seu calvário. Ele se recusava a aceitar qualquer ajuda. Mas ali não poderia ficar eternamente. Foi levado à força – pura maneira de dizer - para o seu apartamento pelo morador do primeiro andar, um médico de renome na região, que lhe botou uns remedinhos na boca e o deixou na cama. O síndico se recusava terminantemente a se alimentar. Dava um trabalho danado aos filhos e à empregada. Ninguém o visitava. Só aquele médico de renome que iniciou um tratamento intensivo, à base de medicações modernas e que deram certo em casos semelhantes, segundo relato posterior às autoridades. Sua mulher sumiu. Ficou para sempre na casa de um amigo, bondoso e bonitão. Os filhos repetiram o ano na escola. O Residencial ficou abandonado por algum tempo. Uma bagunça. Um horror!
Os condôminos só souberam do desfecho desse estranhíssimo caso, quando a tal empregada deles noticiou a todo mundo, ao anoitecer de um domingo, que seu patrão já estava bem de saúde, quando morreu, pelo início da manhã. De repente. Mas bem melhorzinho...









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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.