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23 de junho de 2006

O PULO DO GATO




Dizem que sempre que ele chegava do Banco onde trabalhava, entrava pela porta de serviço no apartamento do nono andar para, ir afagar a pelagem brilhante de seu gato de pura linhagem camboriense, uma raça da própria região onde ele se criou e, agora, mora e trabalha. Como na novela, ele também coçava seu felino, levando-o ao ombro, sempre que se aborrecia com alguém do Residencial do qual era síndico. Mas o cara era mesmo intragável. Isso não era dito só por meia dúzia de três ou quatro condôminos. Não! Era unanimidade. Um cara rabugento, implicante, chato pra cachorro. Ou para gato, talvez, quem sabe! Complicava tudo que podia fazer com simplicidade e sensatez. Tratava os empregados como os patrões do início do século vinte. Uma peste! Escondia ocorrências importantes do dia-a-dia da vida do prédio e fazia coisas incompatíveis com um serventuário de importante casa de créditos e investimentos. Não era transparente. Não gostava de que ninguém soubesse de nada. Não por ser desonesto. Não era. O cara era mesmo confuso. Confuso e complicado. Nunca tomava uma decisão e empurrava com a barriga o que teria de fazer para, por exemplo, consertar uma parede cujo reboco acabara de se esfarelar. Para comprar alguma coisa de pequenino valor para o condomínio, fazia sempre uma tomada de preço entre, pelo menos, quarenta e cinco fornecedores. Ou mais. Não que alguém reclamasse de superfaturamentos em suas contas. Nada disso. O cara era honesto, mas chatíssimo. Um porre! Para dizer que concordava com algo, fazia uma viagem ao fim do mundo... E para dizer que discordava, usava sempre a metáfora da gênese, para concluir, sábia e filosoficamente, que Deus não fizera o mundo em apenas um dia. Ele era assim, junto à administração do condomínio, mas também no trato administrativo de sua belíssima família. Dentro do sacrossanto recesso de seu lar, a pobre empregada sofria com sua avareza, suas rabugices, suas meticulosas atitudes em relação ao serviço das refeições, por exemplo. Até com a disposição, no banheiro, do papel-higiênico pendurado, ele implicava, deixando a coitada serviçal de péssimo mau humor, todos os dias. Lidava com os filhos, como os senhores-de-engenho, dos tempos da escravidão. Sua filha só podia namorar das dezesseis às dezoito horas e quarenta e cinco minutos, sentada no saguão do prédio. O filho, surfista por pensamento, jamais fora à praia pegar uma marolinha sequer, pois isso é coisa muito perigosa para a reputação de um jovem, futuro candidato a um cargo público qualquer. Eram seus argumentos.

Quando a coisa ficava preta, isto é, quando discutiam dentro de casa, pois o choque de gerações era previsível, os vizinhos ouviam uma gritaria danada e os grunhidos do gato branco de raça pura eram assustadores. O bichano sofria muito, coitado! Mas como não há mal eu sempre dure, nem bem que nunca acabe, as carícias foram escasseando. As brigas com os filhos foram aumentando. A esposa sempre tentando tampar o sol com a peneira. Todos no prédio a consideravam vítima de um marido muito estranho. Mas também ninguém gostava dela, não! Dizia-se até que ela deixava o gato sem comida, dias e dias, coitadinho!

Na urna de sugestões acumulavam-se reclamações sobre a barulheira e os miados do bichano, cada vez mais arredio e estressado. A empregada espalhou no condomínio que o bancário deixara de afagar o gato. Que o bicho andava agressivo e quase não dormia mais de dia, estando sempre arisco, pulando de móvel em móvel pelos pequenos cômodos do apartamento.

O fato é que bancário, bichano, empregada, esposa e filhos passaram a brigar noite e dia, constantemente, fazendo ressoar do nono andar, onde viviam, para todo o resto do prédio, uma barulheira horrível, tirando completamente a paciência e, às vezes, o sono dos vizinhos. Um horror!

Um dia, chegando em casa, depois de uma caminhada pela praia, de longe percebi uma movimentação incomum na frente do prédio. Fui chegando e me disseram que o gato branco de raça maravilhosa havia pulado, com grande estilo, da janela, lá de cima, do nono andar, numa tentativa de fugir da baita confusão que se estabeleceu no apartamento, quando o cachorro do juiz aposentado, que mora em baixo, entrou pela porta de serviço, disposto a botar ordem naquela zona toda.

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.