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14 de junho de 2006

UMA PROFECIA FUTEBOLÍSTICA

LUIZ CESAR SARAIVA FEIJÓ

O cronista e jornalista esportivo, Armando Nogueira, depois da Copa de 98, na França, participando da Aula Inaugural do Curso de Pós-graduação em Administração Esportiva, da Universidade do Esporte, em Curitiba, em entrevistas aos jornais locais, teceu comentários muito interessantes sobre o futuro do futebol brasileiro em competições internacionais, chegando, mesmo a afirmar que o Campeonato Mundial de Futebol, promovido pela FIFA, a Copa do Mundo, será, um dia, disputado por times e não mais por países. Seus argumentos são interessantes e vamos tentar analisá-los pelo discurso metalingüístico do futebol, chamando-se a atenção para alguns significantes lingüístico-sociais, retirados de suas observações. Pelo que Armando Nogueira nos transmitiu, podemos ver que TORCIDA e PLATÉIA não são, absolutamente, sinônimos. Mas, por que torcida e platéia não podem ser usados, um no lugar do outro ?
Se não, vejamos. O termo TORCIDA, possui um leque significativo muito abrangente como: afligir, amargurar, atirar, atormentar, curvar, dobrar, despedir, dirigir, enrolar, experimentar, inquietar, lançar, revolver, sondar, torcer, torturar, vergar, voltar. TORCIDA, segundo o Dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, significa coletividade de adeptos de um clube esportivo; grupo de torcedores, galera, sendo este último significado, utilizado na linguagem especial do futebol.
O termo PLATÉIA, significa o espaço destinado aos espectadores em um teatro, cinema ou auditório e, por extensão, aos que assistem a espetáculos, os mais variados, inclusive espetáculos esportivos.
Parece, assim, que esses dois termos são empregados, sempre guardando seus semas (significados primitivos) mais significativos. TORCIDA é empregado para os jogos dos quais a massa comparece como assistência, como público participativo, espectador e ator ao mesmo tempo. O termo TORCIDA está na boca do povo que aprecia o espetáculo do futebol. O termo TORCIDA consta do vocabulário ativo dos locutores, repórteres e comentaristas de rádio e televisão. Está na boca do povão.
Já o termo PLATÉIA é raramente encontrado na fala dos homens de rádio e televisão que transmitem as partidas de futebol. Parece que está restrito a alguns outros tipos de competições esportivas, onde o público não participa, ao mesmo tempo, como espectador e ator. O comportamento educado do público, dentro de parâmetros elevados da etiqueta social, seu estado emocional, muito mais orientado pela razão do que pela emoção, e, até a indumentária desses espectadores, denunciando-os como pertencentes a uma faixa alta da estratificação social, seria indicador de uma clara elitização. Esse comportamento integrado observa-se nas partidas de tênis, patinação no gelo e em algumas competições olímpicas. Assim, o termo PLATÉIA adquire uma conotação elitista, opondo-se ao termo TORCIDA, com conotação, nitidamente, popular. Por outro lado, de acordo com situações bem excepcionais, uma torcida inteira pode se transformar em uma grande platéia. Para tal, basta que os espectadores de uma partida de futebol se comportem como espectadores de uma partida clássica de tênis. Exageros à parte, vamos idealizar esta situação, para consubstanciar a breve análise dos sinais (análise semiológica) encontrados, por exemplo, nas partidas de futebol de que a Seleção Brasileira participou, na Copa do Mundo da França, em 1998. O público brasileiro presente era, em sua maioria absoluta, formado por indivíduos das classes sócio-econômicas média e alta. Para muitos, os jogos da Seleção Brasileira, na França, foram, apenas, pretextos para férias extemporâneas e passeios de verão pela Europa, com um Real forte no bolso. Público de alto poder aquisitivo, educado, com repertório cultural e nível de escolaridade elevados, de fino trato, regidos mais pela razão do que pela emoção. Junte-se a tudo isso o tipo de cultura futebolística francesa, completamente diferente da de outros centros europeus e sul-americanos, onde a emoção, muitas vezes, é a responsável por atos de muito vandalismo nos estádios.
Entende-se perfeitamente o que Armando Nogueira quis dizer, quando não considerou como sinônimos PLATÉIA e TORCIDA. Estava ele indignado com o comportamento dos espectadores brasileiros (como PLATÉIA) que não se irritaram, não se indignaram, não mexeram com o brio da equipe, não espernearam, não gritaram, não berraram palavras de ordem, não xingaram, como todo bom fanático torcedor brasileiro. Não hostilizaram o time, nem a comissão técnica.

Armando Nogueira tinha uma visão um pouco utópica sobre a Seleção, achando que, no futuro, a Copa do Mundo seria disputada entre clubes. “A Seleção, no que ela pode representar um substrato de uma nação, é uma ficção”, dizia ele naquela ocasião. E continuava. “Comparada com a realidade mercantilista do futebol, o que importa é o clube. O clube é muito mais importante que a pátria na vida do cidadão que ama o futebol. O sentimento clubístico precede o sentimento patriótico”.
O que pode causar polêmica, no texto acima, certamente está ligado aos conceitos dos três significantes: nação, pátria e clube. Por quê ? Primeiro, não é fácil deixar de lado significações intensamente interiorizadas em nós, desde pequeninos, como o significado de “nação” e de “pátria”, substantivos até aceitos como sinônimos, um do outro. Depois, o texto coloca em confronto CLUBE e PÁTRIA, um com o outro. E mais, o primeiro, em ordem de grandeza, maior do que o segundo. Portanto, devemos conhecer alguma coisa a mais sobre nação, pátria e clube.
Nação é a reunião de indivíduos fixados em um território (mesmo que não tenham nascidos lá), unidos pelas mesmas marcas culturais; mesmos laços históricos; mesma língua, religião; mesmas formas de habitação, maneira de plantar, de vestir, de sentir a realidade circundante. Indivíduos reunidos em torno dos mesmos interesses, símbolos, emblemas, organizações, lendas e regras. Indivíduos venerando heróis envolvidos em feitos grandiosos, responsáveis pela coesão do grupo. Será, ainda, a reunião de Indivíduos formando um grupo politicamente organizado sob um único governo. Pode ter a acepção de Estado (Cf. Organização das Nações Unidas - ONU).
Pátria é o país natal, o solo natal, a terra natal. Lugar de origem. Termo ligado às origens. O país onde nascemos.
Clube é o local de reuniões políticas, econômicas, literárias ou recreativas. O sema predominante será “agrupamento de pessoas”.
Se observarmos bem, podemos dizer que o vocábulo nação pode fazer uma referência histórica, como nação tabajara ou uma referência racial, como nação nagô. Se a referência for uma organização política, empregam-se as expressões nações amigas, Nações Unidas. Se a referência for o futebol, podem-se empregar as expressões nação rubronegra, nação vascaína etc.
Pátria, como locativo, usa-se e emprega-se em situações como as seguintes : “Minha pátria é a língua portuguesa” (Fernando Pessoa); Ouro Preto é a pátria das igrejas barrocas; O Brasil é a pátria do samba; A Inglaterra é a pátria do futebol . Metaforicamente, Nelson Rodrigues dizia: “A Seleção é a Pátria de chuteiras”.
Clube, como referência político-econômica, pode-se usar em expressões como: Clube dos Sete (Dos sete países mais ricos do mundo), por exemplo. Como referência literária, Clube literário Machado de Assis, e como referência recreativa, usa-se para indicar o nome de associações grupais, como Clube Ginástico Português, Clube do Bolinha etc.
E nos clubes dedicados ao futebol, muitos surgidos nos subúrbios das grandes cidades, apareceram jovens de todas as idades, de todas as raças, de todas as classes sociais, ávidos para praticarem este esporte. Praticavam esse esporte em qualquer canto, em qualquer praça pública de barro batido, em qualquer rua sem muito movimento, nas várzeas verdejantes ao lado das chácaras produtoras de verduras para o abastecimento da grande cidade distante. E quando encontram um lugar protegido, aconchegante, logo se reúnem e se organizam. Assim os clubes foram surgindo, e substituíram o espaço público desorganizado, onde a população mais carente se distraía, em espaço de recreação organizada, onde as práticas esportivas passaram a ser melhor definidas. Com o passar do tempo os clubes se transformaram em grandes “nações”: a banguense, a vascaína, a rubro-negra, a tricolor, a americana, a botafoguense da estrela solitária, a corinthiana, a palmeirense etc. A prática futebolística estava presente em todas essas agremiações e, por isso, pode-se afirmar que o futebol foi o maior responsável pela miscigenação étnica, tornando-se o mais popular jogo em campo aberto do Brasil. Clubes com conotação de nação.
Clube, portanto, é o local de reuniões recreativas, proporcionando prazer, alegria (às vezes tristeza também), diversão e felicidade, é maior que nação. Fernando Pessoa dissera que sua pátria era a língua portuguesa. Portanto, quando o problema é o das origens, podemos berrar utopicamente - coração na boca e mão direita no peito - : minha pátria é meu clube... e ninguém muda de clube, mas muda-se de nação, adotando-se um país para lá viver... Será que a profecia de Armando Nogueira vai se concretizar? Nessa Copa de 2006, na Alemanha, não aconteceu. Agora o ambiente é outro e o tempo passou. As torcidas estão iniciando o maior show do mundo, nas arquibancadas germânicas. Estamos anotando quase tudo, para tentarmos analisar, mais uma vez, esse fabuloso esporte de massas, que é o futebol. Voltaremos em breve.

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Balneário Camboriú, Sul/Santa Catarina, Brazil
Sou professor adjunto aposentado da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sou formado em Letras Clássicas pela UERJ. Pertenço à Academia Brasileira de Filologia (ABRAFIL), Cadeira Nº 28.